Valiosos pilares por Yoskhaz, outubro 6, 2016

Na charmosa cidadezinha que fica no sopé da montanha que acolhe o mosteiro, aos sábados, todo o comércio encerrava a sua atividade ao meio-dia, salvo restaurantes, cafeterias e pubs, pontos de encontro para alegres almoços ou reunião de amigos. A famosa exceção era a oficina de Loureiro, o elegante sapateiro, amante dos livros e dos vinhos. A loja de Loureiro funcionava em horário irregular e inusitado. Encontrá-la aberta a qualquer hora do dia ou da noite era um autêntico jogo de sorte. Naquele sábado à tarde, antes de retornar ao mosteiro, arrisquei encontrá-lo para um café e uma conversa vadia. A loja estava fechada. Como a minha carona era apenas para a noite, tentei uma taberna pouco concorrida, a qual ele muito apreciava. Encontrei o artesão acomodado em uma confortável poltrona, ao lado de uma pequena mesa com uma taça de tinto e um abajur que lhe permitia ler O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, com invejável tranquilidade. Quando fui cumprimentá-lo, se aproximou, quase ao mesmo tempo, outro amigo dele. O homem estava com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. De imediato, contou que na noite anterior fora surpreendido com o término de um romance que, embora não tenha durado muito tempo, havia sido intenso. Loureiro, ao perceber que o amigo não tinha me notado, nos apresentou. Renê, este era o seu nome, me tratou de maneira educada. O sapateiro pediu para que puxássemos cadeiras para ficarmos mais próximos a ele, pois o seu tom de voz era sempre muito suave. Acrescentou para o Renê que poderiam conversar sobre o seu dilema em outra hora, uma vez que a minha presença poderia constrangê-lo. O homem disse que não tinha problema nenhum. Precisava desabafar e ouvir algumas palavras que pudessem arrefecer a sua dor. Em seguida, confidenciou que nos últimos meses as discussões com a namorada se acirraram e as brigas se tornaram uma constante. Reclamou da dedicação exagerada da mulher ao filho, fruto de um relacionamento anterior, o que reduzia bastante o tempo para ficarem a sós. Como se não bastasse, todas as quartas-feiras ela tinha o hábito de se reunir com um grupo de amigas para jogarem cartas. O sapateiro bebericou um gole do tinto e comentou: “Ao que me parece, o filho e as amigas já faziam parte da vida dela quando você a conheceu”. O amigo confirmou. Loureiro deu de ombros e disse: “Ser uma boa mãe e cultivar amizades são ações nobres. Não vejo motivo para reclamações”, fez uma pequena pausa e quis saber: “O ciúme o atormenta”? Renê negou de maneira veemente. Tornou a perguntar: “Você é egoísta em suas relações”? O amigo esclareceu que apenas precisava de mais tempo com a namorada. O artesão franziu a testa, como fazia todas as vezes em que o interlocutor parecia confundir os próprios sentimentos, nada falou sobre isto e manteve o raciocínio: “Quando você se apaixonou, bom ou ruim, ela já era assim. No entanto, você desejou moldar os hábitos dela para se adequarem ao seu ideal de convívio”. O homem argumentou que uma pessoa compromissada com outra tem que aceitar as mudanças inerentes ao relacionamento. Por isto, discutiam tanto, mas não esperava ser surpreendido com o desfecho do romance. Loureiro balançou a cabeça em negação e disse: “O desejo em mudar os outros é o mais tolo dos equívocos”, em seguida comentou: “Cada qual tem apenas poder sobre si mesmo e somente possui direito em relação às próprias escolhas”. Fechou os olhos, como se procurasse as melhores palavras e acrescentou: “Relacionamentos são como pontes, dificilmente desabam sem que os seus alicerces deem sinais de desgaste. Em geral, somos nós, que ao negar a necessária reforma em nossas estruturas, fingimos não ver as rachaduras. A ponte dos relacionamentos pode ser firme ou frágil, a depender dos pilares que escolhemos para sustentá-la”. Renê quis saber quais os pilares que melhor sustentam tal ponte. O sapateiro os revelou: “A paciência e o respeito”. “Não raro, quando um namoro, casamento, o convívio entre pais e filhos, uma amizade ou mesmo as relações de um grupo social começam a enfrentar muitos conflitos, devemos ser absolutamente sinceros para que, em análise de autoconhecimento, verifiquemos se os olhos que têm provocado tantos desentendimentos não estão distorcidos pelas lentes do egoísmo e do ciúme. Nos relacionamentos afetivos, principalmente naqueles mais íntimos, somos condicionados, de maneira errada, a nos imaginar como a parte principal da vida do outro. Isto nunca será verdade, ao menos em uma convivência saudável. Cada qual é o eixo central e mais precioso da própria vida. É o protagonista do próprio filme. Todas as demais pessoas são coadjuvantes que vão agregar cenas indispensáveis de afeto, alegria, auxílio ou aprendizado, sejam aliados ou vilões. Todos, sem exceção, têm um importante papel a desempenhar. Mas não esqueça: você é o personagem mais importante da sua história. Trata-se da sua jornada evolutiva. No entanto, pelos mesmos motivos, aceite que será sempre coadjuvante na vida do outro”. Renê insistiu que uma relação afetiva acaba por obrigar a mudanças de comportamento. Loureiro fez um gesto com a mão como se o amigo não estivesse entendendo: “Sim e não”, contestou. “Claro que uma pessoa casada não pode ter uma rotina de solteira em muitos aspectos. Todavia, há que se estabelecer limites. Ter uma vida em comum não significa anular nem abandonar a essência que movimenta aquele indivíduo em razão de um modelo enlatado e anacrônico de convívio”. “Cada qual é único; nisto reside a beleza de todos. Ao forçar que alguém se encaixe em uma fórmula de viver, agimos como ladrões da alegria por subtrair do outro o que há de melhor nele. É muito chato conviver com alguém que vive aos lamentos e queixas ou, pior, deseja nos controlar. Isto é dominação e acabará sufocando o amor, que precisa dos ventos da liberdade para existir. Por definição, filosofia e necessidade”. “É evidente que você deve conversar para expor o seu ponto de vista sobre uma situação que entenda equivocada. No entanto, fale com calma e clareza para que as suas ideias sejam compreendidas. Ninguém entende os argumentos de ninguém durante uma discussão. Entretanto, o outro pode acatar ou não os seus motivos: a razão não tem dono. Lembre que cada qual reage de acordo com o seu nível de consciência e tem total liberdade sobre as próprias escolhas”. “Quando uma situação nos incomoda significa que algo precisa ser transformado. Sempre na gente, nunca no outro. Caso uma troca de ideias serenas revele uma grande diferença de percepções em relação à vida e isto o entristeça, não insista em modificar o comportamento alheio. Todos ficarão infelizes e o relacionamento restará aborrecido. Aceite que pode ser a hora de seguir sozinho a viagem. Ou o momento de mudar o próprio olhar. Paciência e respeito pelo outro significam paciência e respeito por si próprio”. “A paciência é uma poderosa virtude sem qual nunca desfrutaremos da clareza da sabedoria nem da doçura do amor. A paciência nos alia ao tempo e ajuda a entender a diferença entre desejo e necessidade. A paciência é ferramenta da quietude que nos leva ao encontro mais importante da vida, aquele que cada qual deve ter consigo mesmo; ao entender a si, entenderá o mundo. Enfim, o amor sem paciência nunca será amor. A paciência nos ensina que o amor não precisa ser perfeito e dificilmente o será. O amor é uma obra inacabada no coração de cada ser, trabalhada todos os dias, incansavelmente, até o infinito dos tempos. Abandonar o amor por não o aceitar imperfeito é não entender o amor”. “Por sua vez, o respeito está ligado a outras virtudes como a sinceridade e a liberdade. Nenhum relacionamento se sustenta nos alicerces das fraudes, dos subterfúgios e das mentiras. A mais comum é também a mais dolorosa das mentiras: aquelas que contamos para nós mesmos. O respeito fala sobre ser autêntico, em viver de acordo com as próprias verdades, ainda que todos discordem. Lembra que o fato de discordar não concede o direito de atormentar o outro por causa das opiniões dissonantes. As diferenças são a força motriz do avanço da civilização. Ou seja, as diferenças, quando bem aproveitadas, trazem crescimento por oferecer outro olhar e novas possibilidades. O respeito aborda, ainda, a beleza e o poder das nossas escolhas, pois são as únicas ferramentas disponíveis para o exercício de libertação do ser. Não há outra. Em contrapartida, se exige absoluto respeito em relação às decisões alheias, pois todos estão em jornada evolutiva para o mesmo destino”. “Paciência fala sobre os motivos para ficar; respeito se refere à liberdade de partir”. “É um direito a escolha de ir, se a relação já não gera mais flores e frutos; ou de ficar, se apesar das inevitáveis imperfeições ainda é possível compartilhar o que temos de melhor em constante oferenda de aprendizado, alegria e afeto”. “Partir, por motivos óbvios, pode significar a necessária renovação. Ficar, a depender da situação, também. A busca por um novo ponto de equilíbrio é uma virtude muito apreciada, a adaptabilidade. Diferente do comodismo, ela traz em si uma revolução de conceitos que agrega valores ao permitir olhar o outro além de si próprio. Isto é a lição da ‘outra face’ na prática. Isto o torna diferente e melhor”. Com os olhos mareados, Renê disse que a separação lhe causava muita dor. O sapateiro arqueou as sobrancelhas e finalizou: “Os conflitos são inevitáveis aos relacionamentos; a tristeza, não. Que o sofrimento pelo fim do namoro seja transformado pela alegria do aprendizado. Por maior que seja a paixão e que haja o desejo sincero em construir uma vida em comum, nenhum relacionamento se sustenta sem os pilares da paciência e do respeito. Paciência para entender o que se passa no coração e na mente do outro, pois sem essa virtude as diferenças deixam de ser lições para se tornarem sombras; respeito pela liberdade às escolhas, as suas e as alheias, na criação da enorme beleza de ser único. Tanto você quanto o outro. É a leveza indispensável para voar muito além dos vales sombrios da existência”. Com base no belíssimo texto de O Sapateiro e o Filósofo, preparei a análise solicitada, sintetizando as lições de Loureiro. Resumo do Texto O texto narra o encontro fortuito entre o narrador, o sapateiro filósofo Loureiro e seu amigo Renê, que sofria pelo término recente de um namoro intenso, desgastado por cobranças e tentativas de controle. Loureiro acolhe o amigo e explica que o desejo de mudar o outro é um erro comum nascido do egoísmo, pois em uma relação saudável cada indivíduo deve permanecer como o protagonista de sua própria história. Ele compara os relacionamentos a pontes e enfatiza que nenhuma união sobrevive sem a sustentação de dois pilares fundamentais: a paciência para compreender as imperfeições e o respeito pela liberdade alheia. Ao final, o sapateiro aconselha Renê a transformar a dor da perda em aprendizado, aceitando que o fim ou a permanência dependem da maturidade de olhar além de si mesmo. A Essência da Lição A frase do próprio texto que melhor traduz a essência do ensinamento de Loureiro é: "Paciência fala sobre os motivos para ficar; respeito se refere à liberdade de partir." 1. A Lente da Antroposofia (Rudolf Steiner) Na Antroposofia, o encontro com o outro e os conflitos relacionais são vistos através da Sua Jornada Biográfica e do Carma. O Encontro Cármico: Para Steiner, as pessoas com quem nos relacionamos não surgem em nossa vida por acaso. A namorada de Renê e as circunstâncias que ela trouxe (o filho, as amigas) faziam parte do cenário necessário para o aprendizado dele. O Egoísmo vs. O Eu Superior: Quando Loureiro diz que Renê tentou "moldar os hábitos dela para se adequarem ao seu ideal", a Antroposofia identifica a atuação do Corpo Astral (onde residem as paixões, simpatias, antipatias e o egoísmo) tentando abafar o desabrochar do Eu Superior de ambos. A Força do Respeito: O respeito ao qual Loureiro se refere é o reconhecimento do "Eu" do outro como uma entidade espiritual livre. Forçar o outro a se encaixar em um molde é violar o seu desenvolvimento anímico. 2. A Lente do Pathwork (Eva Pierrakos) O Pathwork é um caminho de autoconhecimento focado na transformação da negatividade e na busca pela autorresponsabilidade. O diagnóstico de Loureiro sobre Renê é um reflexo exato desta metodologia. A Imagem e a Projeção: Renê criou uma "imagem" (uma ilusão/exigência idealizada) de como o relacionamento deveria ser. Ao exigir que a namorada mudasse, ele operou a partir do seu Eu Inferior, que busca prazer infantil e controle absoluto. O Desejo de Dominação: Loureiro pontua cirurgicamente: "Isto é dominação e acabará sufocando o amor". No Pathwork, a necessidade de controlar o parceiro esconde o medo da rejeição e a recusa em olhar para as próprias carências. A Crise como Oportunidade: Quando o sapateiro afirma que o incômodo sinaliza que algo precisa ser transformado "sempre na gente, nunca no outro", ele resume a chave mestra do Pathwork. A dor de Renê não é culpa da ex-namorada, mas sim o colapso de suas próprias defesas, convidando-o a assumir a responsabilidade por sua felicidade. 3. A Lente da Mística Cristã A Mística Cristã — viva na atmosfera do mosteiro que coroa a montanha da cidade — enxerga o amor e o sofrimento como vias de purificação (via purgativa) e união com o divino. O Desapego e a Verdade: Loureiro recorda que "cada qual é o eixo central (...) o protagonista do próprio filme". Na mística de autores como São João da Cruz ou Meister Eckhart, o amor humano frequentemente adoece porque tentamos fazer do outro o nosso "Deus", gerando idolatria e apego. O esvaziamento desse apego egoísta é doloroso, mas essencial para que o verdadeiro amor floresça. A Paciência e o Tempo de Deus (Kairós): A definição de paciência dada pelo sapateiro ("o amor sem paciência nunca será amor") ecoa o famoso hino de São Paulo aos Coríntios ("O amor é paciente..."). A paciência mística é a capacidade de suportar a imperfeição humana, sabendo que a alma é uma "obra inacabada" nas mãos do Criador. A Lição da "Outra Face": A adaptabilidade citada no texto é traduzida por Loureiro como a "lição da outra face na prática". Na mística cristã, oferecer a outra face não é submissão cega, mas a capacidade heróica de não responder ao conflito com o ego, escolhendo olhar o outro com os olhos da compaixão divina, mesmo quando ferido. Conclusão Unindo as três visões, o veredicto de Loureiro se torna um mapa espiritual: as "rachaduras na ponte" do relacionamento de Renê não eram o sinal de um castigo, mas o colapso necessário de uma estrutura ilusória. Para a Antroposofia, o Pathwork e a Mística Cristã, a separação convida Renê a deixar de ser um colonizador da vida alheia para se tornar, finalmente, o mestre de si mesmo.

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