As ferramentas do amor por Yoskhaz. outubro 14, 2016

Quando o Velho, como carinhosamente chamávamos o monge mais antigo da Ordem, entrou na agradável biblioteca do mosteiro, eu estava imerso na reflexão de um trecho do livro de parábolas de Rami. O monge retirou um livro da estante e se acomodou em uma confortável poltrona ao meu lado. Reparei que era o milenar Tao Te Ching ou o Livro do Caminho e da Virtude, de Lao Zi. Como estávamos apenas os dois na biblioteca, ousei puxar assunto. Falei que, por acaso, lia um livro que também abordava o valor das virtudes e, além de enaltecer a coragem como uma delas, sentenciava que ‘o amor é para os fortes’. O monge, com a sua voz sempre suave, foi lacônico em seu comentário: “Sim, é verdade”. Discordei sob o argumento de que o amor, por toda a sua importância, estava à disposição de todos, indiscriminadamente. O Velho me olhou com a sua enorme paciência e disse: “Sim, também é verdade”. Balancei a cabeça e mexi as mãos, como se esses movimentos pudessem amplificar as minhas razões, para acrescentar que ele estava sendo incoerente: o amor era para todos ou apenas para os fortes. Pedi para ele se decidir. O monge arqueou os lábios em leve sorriso e começou a explicar: “Você confunde tudo, Yoskhaz. Não percebe que se trata de coisas diferentes? Ou melhor, de situações em que o amor se apresenta de maneiras distintas”? “Sim, o amor está ao dispor de cada pessoa, pois, por ser a força que rege o universo, repousa na essência de todos. O amor é a estrada e o destino. É a virtude maior por estar presente em todas as demais virtudes ou elas deixam de existir. No entanto, para viver o amor, ao menos em toda a sua extensão, precisamos dessas outras virtudes como instrumentos de disseminação do bem. Assim, permitimos, não apenas o desenvolvimento do próprio ser, mas a propagação da luz por ele emanada até a mais distante das estrelas. O universo agradece e nos retribui também em luz por gratidão e justiça”. Deu uma breve pausa e prosseguiu: “O amor é a virtude indispensável nas transformações, logo, sem ele não há evolução. No entanto, o amor adormecido em cada um de nós precisa de trabalho para despertar e crescer nas adversidades. Amar quem nos ama é fácil; amar quando as situações são favoráveis, muitos conseguem; amar nas adversidades é permitido apenas aos fortes”. Falei que não tinha entendido. O monge fechou os olhos, como se procurasse a melhor palavra, e disse: “O amor é o alimento da alma; é o sagrado que nos habita. Cada qual, em essência, é tão somente a centelha de amor que o movimenta. Nada mais. No entanto, o amor que existe em cada um de nós é como uma semente que precisa florescer para embelezar a si e frutificar para alimentar ao mundo”, deu uma breve pausa e concluiu: “Não esqueça que conhecemos a árvore pelos seus frutos”, lembrou de uma valiosa passagem do Sermão da Montanha. Comentei que como cada um oferece apenas o que possui, o indivíduo ama na exata medida da sua capacidade de amar. O Velho concordou: “Não tenha dúvida. Por isso a importância do desenvolvimento das virtudes, elas são as ferramentas do amor. Evoluímos na medida que que aprendemos a utilizar esses instrumentos. As virtudes se apresentam, desenvolvem e sedimentam no ser de acordo não apenas do seu nível de consciência, mas, também, da sua capacidade amorosa”. De pronto, pedi para ele falar mais das virtudes. O Velho disse: “São muitas as virtudes e o andarilho precisa aperfeiçoar todas em si. O amor, a sabedoria e a coragem; a justiça, a honestidade, a compaixão, a misericórdia, a dignidade e a sinceridade; a liberdade, a humildade, a simplicidade e a pureza; a paciência, o respeito, a doçura, a delicadeza e a alegria são algumas dessas ferramentas indispensáveis nos campos da evolução. Se você prestar atenção, perceberá que as virtudes necessitam uma das outras para ganhar força e poder, fechando o círculo de cura da vida. Embora cada qual pareça independente, elas se completam em trabalho de indispensável solidariedade”. Eu quis saber um pouco mais sobre o intercâmbio que integram as virtudes. O Velho não se fez de rogado: “O principio básico ensina que o amor é a força que deve orientar todas as nossas escolhas. Ou seja, nos movimentamos por amor ou estaremos seguindo para o lado errado. Um pequeno exemplo: não raro, assistimos a sabedoria sendo utilizada para enganar, manipular e conseguir vantagens desonestas. Por sua vez, a coragem também está presente no ânimo dos malfeitores quando da prática de muitos dos seus crimes absurdos. Estamos acostumados a associar os heróis aos atos de bravura e inteligência nos filmes de cinema, esquecendo que os bandidos também utilizam essas ferramentas para executarem os seus planos terríveis. Qual a diferença entre eles? É que os heróis se servem da sabedoria e a coragem para a prática do bem. Somente quando revestidas de amor, a sabedoria e a coragem se tornam virtudes; sem amor, sabedoria e coragem se desviam para as raias da esperteza e da brutalidade”. Falei que estava achando o amor muito complicado. O monge deu uma gostosa gargalhada e foi didático: “Para viver o amor precisamos entender o amor. É indispensável desconstruir muitos dos conceitos que nos iludem quanto a esse sentimento e começar a percebê-lo como ele é de verdade. Será necessário que já tenha desenvolvido algumas virtudes como a sabedoria, o respeito, a generosidade, a harmonia e a liberdade”. Pedi para ele citar alguns exemplos. O Velho falou: “Entender de uma vez por todas que amor não é troca; que ninguém sofre por amor; que ninguém pertence a ninguém; que ninguém tem a obrigação de te fazer feliz, são apenas alguns dos condicionamentos que o impedem de viver o amor em toda a sua amplitude. Para tanto, se faz imprescindível descortinar o véu dos enganos proporcionado pelas sombras do medo, da ignorância e da desesperança. Mas não basta perceber, é preciso enfrentar e superar a si mesmo. E mais, é indispensável vivenciar e sentir tudo que se aprendeu ou as lições não se completam. É necessário se despir das ideias obsoletas e das reações automáticas que não servem mais. Se expor à rejeição e às críticas daqueles que ainda não conseguem entender o que já é claro no seu olhar. Deixar para trás muitas das coisas que até aqui se acreditou importantes, mas que agora pesam por inutilidade. Encarar o espelho para enxergar as feridas que sangram na alma e ter o firme propósito em se curar. Depois, oferecer o seu melhor a toda a gente e, então, seguir em frente”. Perguntei qual era a forma mais sublime de amor. O Velho respondeu de pronto: “O perdão. O amor é para todos, mas apenas os fortes são capazes de perdoar quem os ofendeu. Derramar um olhar de sincera compaixão sobre o seu agressor e compreender que ele não foi capaz de fazer diferente e melhor. Não é fácil. Sem esquecer que o perdão tem que ser um ato de sincera humildade, pois temos as nossas próprias dificuldades e imperfeições; diferentes, talvez, daquelas do oponente, mas mesmo assim, dificuldades e imperfeições. Em seguida, envolver o ofensor em um manto de divina misericórdia por entender que todo agressor é profundamente infeliz por se distanciar do bem e de todas as demais energias derivadas do amor. É ainda mais difícil. Será preciso que você já tenha travado algumas batalhas com as suas próprias sombras e transmutado boa parte delas em luz. Trata-se de um ponto angular na transformação do ser. Isto torna o perdão sagrado e libertador. Os fracos ainda estão à serviço das ideias sombrias de revanche e sofrimento, vingança e dor; aprisionados, ao lado de quem os magoou, em um canto escuro de si mesmo”. Então, perguntou fechando o círculo com o início da conversa: “Entende por que o amor é destinado aos fortes? Percebeu que para viver o perdão foram necessárias outras virtudes como a compaixão, a humildade e a misericórdia? Além do amor, é claro”. Apenas balancei a cabeça como resposta. Ficamos um longo tempo sem dizer palavra. Quebrei o silêncio para agradecer e dizer que eu começava a entender o valor e o poder das virtudes como ferramentas evolutivas. Em seguida o Velho falou: “As virtudes são as armas usadas pelo guerreiro do amor na grande batalha do universo, aquela que ele trava todos os dias dentro de si. Este é o seu compromisso; vencer a si mesmo é a vitória maior. A transmutação das próprias sombras se traduz em pura luz”, piscou o olho como fazia ao contar um segredo e finalizou: “Todas as virtudes estão adormecidas dentro de ti. Desperte-as e sinta a magia da vida nas tuas mãos através de infinitas transformações”! Resumo do Texto O diálogo no mosteiro revela que o amor está na essência de todos como caminho e destino, mas vivenciá-lo em sua plenitude diante das adversidades é um mérito exclusivo dos fortes. As virtudes — como a sabedoria, a coragem e a compaixão — funcionam como ferramentas interdependentes que só se tornam verdadeiramente luminosas quando orientadas e revestidas pelo amor. Para compreender e praticar esse sentimento em sua forma mais sublime, que é o perdão, o indivíduo precisa vencer as próprias sombras e desconstruir ilusões de posse, dependência e vingança. A evolução espiritual ocorre na grande batalha interna diária, onde o despertar e o amadurecimento das virtudes transformam a semente do amor em frutos que iluminam e alimentam o mundo. Frase Destaque A frase que melhor representa a lição central que o texto pretende passar é: "Vencer a si mesmo é a vitória maior. A transmutação das próprias sombras se traduz em pura luz." 1. Análise Segundo os Princípios da Antroposofia A Antroposofia, fundada por Rudolf Steiner, foca na "ciência do espírito", um caminho de conhecimento que busca ligar o espírito humano ao espírito do universo através do desenvolvimento consciente. O Despertar das Virtudes como Órgãos de Percepção: Para Steiner, as virtudes não são apenas regras morais, mas "órgãos" espirituais que o buscador precisa desenvolver ativamente. Quando o Velho diz que as virtudes estão adormecidas e precisam ser despertadas, isso se alinha perfeitamente com os exercícios esotéricos antroposóficos (como o controle do pensamento, a iniciativa e a equanimidade). Elas limpam os corpos sutis para que a luz do Eu Superior se manifeste. O Amor e a Evolução Cósmica: Na cosmologia antroposófica, a Terra é o "Cosmo do Amor", o palco onde o ser humano aprende a liberdade e o amor altruísta. O texto reflete isso ao dizer que o amor "rege o universo" e é "essencial na evolução". A Força do Eu (Self): O texto enfatiza que amar nas adversidades é para os "fortes". Na Antroposofia, essa força vem do amadurecimento do Eu espiritual sobre a natureza animal ou puramente simpática/antipática do homem. 2. Análise Segundo os Princípios do Pathwork O Pathwork (O Caminho), sistematizado por Eva Pierrakos, é uma abordagem de autoconhecimento psicológico-espiritual focada na unificação do ser através do enfrentamento das próprias distorções. O Enfrentamento das Sombras: O conceito central do Pathwork é o reconhecimento do Eu Inferior (as sombras, o egoísmo, o orgulho). O Velho é cirúrgico ao dizer: "Será preciso que você já tenha travado algumas batalhas com as suas próprias sombras... vencer a si mesmo é a vitória maior". No Pathwork, a única forma de acessar a Centelha Divina (Eu Maior) é atravessando e transmutando a negatividade consciente e inconsciente. Desconstrução de Conceitos e Máscaras: O Guia do Pathwork enfatiza que criamos idealizações falsas sobre o amor para evitar a dor. Quando o Velho desconstrói os mitos de que "amor é troca", "ninguém pertence a ninguém" e que o outro tem a "obrigação de te fazer feliz", ele está desmascarando as defesas do ego e as ilusões que bloqueiam o verdadeiro fluxo do Eu Maior. A Aceitação da Vulnerabilidade: O texto menciona a necessidade de "se expor à rejeição e às críticas". No Pathwork, abandonar as defesas rígidas e aceitar a vulnerabilidade é o portal para a cura real. 3. Análise Segundo os Princípios da Mística Cristã A Mística Cristã (presente em figuras como São João da Cruz, Santa Teresa de Ávila e no próprio Sermão da Montanha citado no texto) foca na união íntima da alma com Deus através do amor, da purificação interna e do esvaziamento do ego. A Árvore e os Frutos (O Sermão da Montanha): O texto cita explicitamente a máxima cristã: "conhecemos a árvore pelos seus frutos". Na mística cristã, a autêntica vida no Espírito não se mede por discursos intelectuais, mas pela caridade prática e pela transformação interior. A Via Purificativa e o Perdão: O ápice da mística é a união com o Amor Divino, mas ela exige uma "Noite Escura da Alma" — um despojamento de si mesmo. O Velho coloca o perdão como a forma mais sublime de amor. No Cristianismo Místico, o perdão ao agressor é o reflexo direto da Graça divina agindo através do homem; o fraco não perdoa porque está preso ao orgulho (ego), enquanto o forte perdoa porque se esvaziou de si e tornou-se um canal da Misericórdia Divina. A Centelha Divina Interior: A frase "O amor é o alimento da alma; é o sagrado que nos habita" ecoa o misticismo de mestre Eckhart, que falava sobre o "fundo da alma" ou o "castelo interior" onde Deus habita no homem.

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